Falar Verdade a Mentir*

Nos últimos dias tenho-me debatido internamente com dois conceitos: verdade e mentira. Tenho pensado bastante sobre o tema e acredito que todos nós somos verdade mas também todos guardamos segredos (até aquelas pequenas mentiras que guardamos porque não queremos magoar o próximo). Parece-me que este binómio de verdade versus mentira é tão mais importante quanto comece por nós próprios. De dentro para dentro. Ontem, numa determinada circunstância, dei por mim a pensar o que raio estava eu a fazer numa sala a ouvir falar de um tema com interesse zero e com um conjunto de pessoas com as quais pouco devo ter a ver. E senti-me verdadeiramente a viver uma mentira. Aquela não sou eu, ou melhor, sou eu a representar um papel do qual nem sequer gosto. E, tem sido com esta mentira que conta a minha verdade, que tenho vivido nos últimos anos.
Com quantos de nós acontece o mesmo? Darmos por nós a dado momento a viver uma vida que não é aquela pela qual tanto lutámos. Umas vezes por comodismo, outras por medo, outras por falta de proatividade. E o tempo passa. E quanto mais passa mais miseráveis nos sentimos. Vivemos a maior parte do nosso dia a representar um papel. E imaginem o quão desgastante isto pode ser. Não estamos felizes e, consequentemente, tornamo-nos mais irascíveis, mais impacientes, mais ansiosos, mais vulneráveis. É preciso reagir. É preciso sermos honestos connosco acima de tudo. É a nossa consciência que está em jogo. É a nossa vida.
A verdade acabará sempre por nos perseguir. E, quando nos chega, pode vir sob a pior forma e na pior altura possível (como aconteceu ontem!). Por isso, há que fazer por sermos sinceros e honestos. Em primeiro lugar connosco e depois com os que nos rodeiam e que amamos. Porque nós e eles merecem que assim seja. A melhor versão da verdade é sempre melhor do que a melhor versão da mentira ou da omissão propositada. A mentira (a que contamos aos outros e a nós próprios) só nós faz mal, só nos consome, só nos degrada. Não acrescenta e não constrói. Antes pelo contrário. É preciso saber gerir bem estes dois conceitos porque na mentira pode existir tanto de verdade…
* Comédia escrita por Almeida Garrett em 1845 e publicada em 1846, oferece como ambiente a cidade de Lisboa em pleno século XIX, onde se digladiam os interesses de duas famílias burguesas e seus criados. Num jogo entre amores e ambições, onde a mentira tropeça na verdade, o refinado sentido de humor do reconhecido autor português abre caminho à reflexão crítica sobre a sociedade da época. Peça teatral muito divertida, é constituída apenas por um ato, formado por dezassete cenas, e a sua temática reveste-se de uma enorme atualidade.
