O que visto e a história que conto

‘We dress to tell a story about ourselves and if there is no one to hear our narrative, we’ve been put on mute – turned into mere ectoplasm in pajamas’ in The Washington Post
Vivemos tempos desafiantes num mundo global onde um novo vírus veio abalar as nossas certezas e a forma como damos tudo o que temos como garantido. Só em situações limite como a que atravessamos é que percebemos que, de um momento para outro, tudo muda e vemo-nos a braços com algo que jamais pensámos ter que vir lidar. Isso implicou muitas alterações no nosso quotidiano e uma das principais foi o facto de termos que optar por diminuir o contacto social para conter a propagação do vírus, o que significou, nalguns casos ter que trabalhar a partir de casa.
Quando saímos para trabalhar, seja em que área for, vestimo-nos de acordo com a nossa profissão. E, mais do que isso, vestimo-nos de acordo com a história e a mensagem que queremos passar. Os advogados e os homens de negócios nos seus fatos clássicos, os informáticos nos seus hoodies, os operários fabris nos seus macacões. Todos eles passam uma determinada mensagem à sociedade. Desta forma, a maneira como escolhemos vestirmos confere-nos um sentimento de pertença/conetividade a algo. Quando temos que ficar em casa em teletrabalho (nas profissões que assim o permitam!) acabamos por não ter uma audiência direta e, por isso, não temos ninguém a validar a nossa narrativa. Pessoalmente, acredito que, estando a trabalhar a partir de casa, seja difícil separar o que é trabalho do que é lazer. E isso pode começar na forma como nos vestimos. Se ficarmos em pijama ou fato de treino o dia todo é mais fácil perdermos o foco. Parece ridículo, mas as roupas permitem-se criar limites e isso é bom neste caso.
Assim, se estão por casa a trabalhar, não deixem de ter uma rotina e arranjem-se como se realmente fossem sair para o vosso local de trabalho. Não se deixem arrastar por casa naquela roupa confortável, que é ótima mas que nos pode arrastar para um mood meio estranho. Ao arranjarmo-nos estamos a contribuir para ajudar a compartimentar os vários momentos do dia e a eliminar a sensação de ‘não sei onde começa e acaba a jornada de trabalho’. Como li no artigo do The Washington Post, ‘As nossas roupas contam uma história. O que acontece à narrativa quando são só pijamas e sweats?’. Por isso, toca a cuidar da nossa auto estima. Se nos sentirmos bem também trabalhamos melhor. E, em menos de nada, tudo isto não passará de uma história para contar.
