Saber Esperar

´Responder rapidamente a todas as mensagens que recebemos só atrasa o que estamos a fazer. Cada trabalhador gasta pelo menos 30% do seu dia a responder a chamadas, SMS ou emails, segundo um estudo.´
Há uns tempos li um artigo que dizia que a nossa capacidade de espera se reduziu bastante nos últimos dez anos desde que andamos com um telemóvel no bolso. De repente, parece que ficámos escravos deste pequeno dispositivo sendo ele que dita as regras do nosso tempo. A dependência que dele temos hoje faz com que este desempenhe um papel que não deveria ter no nosso dia a dia. Se é verdade que nos facilita a vida em muitos aspetos, também é verdade que nos condiciona e que, tantas vezes, nos pode trazer problemas. Sinto que estamos, atualmente, viciados no multifunções. Estamos a responder a um email ao mesmo tempo que falamos com os mil grupos de whatsapp dos quais fazemos parte ou estamos a pagar a conta da luz enquanto vimos passar mais uma notificação do Instagram ou Facebook que nos faz interromper essa tarefa. Estamos a ouvir música ao mesmo tempo que escolhemos a série para ver nessa noite. E assim, vamos indo com a sensação que somos fabulosos ao ter a capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo.
Tornou-se também uma raridade sabermos esperar. Esta dependência do imediato conduziu-nos a um estado de permanente exigência com o ‘agora’. E isto é vivido em todas as dimensões da nossa vida. No trabalho, as solicitações que recebemos são sempre para ontem, o que faz parecer que, no momento em que recebemos determinada tarefa para executar, já estamos atrasados na sua concretização. Os emails contribuem, por exemplo, para que tudo tenha que ser resolvido ‘na hora’. Para quem, como eu, trabalha diretamente com clientes a situação torna-se ainda mais difícil, pois hoje ninguém está habituado a esperar. Os clientes querem respostas na hora e acham que, por vivermos na era digital, tudo se resolve à distância de um clic (já nos conseguimos autonomizar bastante mas ainda há assuntos que carecem de tempo para que possam ser resolvidos, até porque não dependem apenas de uma decisão nossa).
Na nossa vida pessoal, a incapacidade para saber esperar também pode trazer bastantes mal entendidos. Não raras são as vezes em que vejo casais a discutirem por cobranças do género ‘já te tentei ligar duas vezes. Porque é que só agora (30 min) depois é que estás a atender???’ ou ‘porque raio é que não fizeste um like numa foto que eu postei há 5 minutos??’. E, quando se dá por isso, estamos a medir o amor de uma pessoa por outra através da rapidez de resposta ou do número de likes/comentários a uma qualquer publicação. Esta é a sociedade que estamos a criar. Uma sociedade onde os telemóveis, as redes sociais e, de forma global, as novas tecnologias estão a modificar a nossa perceção do tempo e dos vínculos emocionais e afetivos. Estamos a criar a sociedade do consumo imediato. A sociedade do ‘agora’. Uma sociedade superficial. Uma sociedade que não sabe que o ‘saber esperar’ não é para todos.
